Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

Avô e neto

(Texto de Samir Thomaz)

O avô e seu neto de nove anos passeavam pelo calçadão de Copacabana, quando depararam com a estátua do Tom Jobim.

– Quem era, vô?

– Você quer dizer “quem é”?

– Não, quero dizer “quem era” mesmo.

– Por que “quem era”?

O menino encarou a estátua.

– Ele não morreu?

– Morreu.

– Se bem que ele não tem cara de quem já morreu.

Dessa vez foi o avô quem fitou a estátua.

– Por quê?

– Por que o quê?

– Por que ele não tem cara de quem já morreu?

– Porque ele parece jovem na estátua.

Ameaçaram continuar a caminhada, mas o avô estacou:

– E os jovens não morrem?

– Até morrem, mas dificilmente alguém faz uma estátua de um jovem.

– Por quê?

O menino já estava acostumado com os porquês do avô. Encolheu os ombros para sinalizar que a resposta lhe parecia óbvia.

– Porque só quem faz alguma coisa importante e entra para a história é que merece uma estátua.

Voltaram a andar.

– E para fazer alguma coisa importante e entrar para a história é preciso ser velho? – perguntou o avô.

– Ah, é preciso viver muitos anos.

– Quantos anos?

O menino lançou um olhar perdido para o mar.

– Ah, vô, você está complicando.

– Só quero entender quantos anos você acha que uma pessoa precisa viver para fazer alguma coisa importante e merecer uma estátua.

O menino continuava fitando as ondas.

– Muitos anos, vô. Sessenta, setenta… Sei lá. Eu só conheço estátua de gente velha e com barba. Aliás, nunca tinha parado para pensar nisso.

– No quê?

– Que a maioria das pessoas das estátuas são velhas e têm barba.

O avô parou, pôs a mão no queixo e se voltou para a estátua, que já tinha ficado alguns metros para trás.

– Pois é, mas esta não tem barba e a pessoa não é velha.

O menino também se voltou, considerou a escultura de longe.

– É a primeira vez que vejo uma estátua de alguém que não é velho e não usa barba.

O avô deu as costas para a estátua e voltou a andar.

– Mas que fez alguma coisa importante para merecer uma estátua…

– Ele tocava violão?

– Piano.

O menino parou:

– Piano?

O avô estacou também:

– Piano.

O menino encarou o avô com gravidade:

– E por que fizeram a estátua dele carregando um violão?

O avô deu um leve sorriso antes de voltar a andar:

– Bom, ele tocava violão também. E o violão fica mais bonito numa estátua.

Sem deixar de andar, o menino se virou para contemplar uma vez mais a estátua, chegando a andar de costas para não perdê-la de vista.

– Ah, isso é verdade. Mas qualquer dia roubam esse violão dele.

E voltando a andar de frente:

– Não roubaram os óculos da estátua daquele outro homem, como é mesmo o nome dele?

– Drummond. O poeta Drummond.

– Se bem que os óculos são mais fáceis de roubar do que o violão – disse o menino.

– Lá isso é.

Ficaram alguns segundos em silêncio. Então o avô se lembrou da primeira pergunta que o neto lhe fizera.

– E então, já descobriu quem é?

– “Quem é” não, vô, “quem era…”.

 

Samir Thomaz é jornalista, escritor e editor, autor de Meu caro H (Ática, 2000), Carpe diem (Atual, 2000), Garoto em parafuso (Scipione, 2005), O cobrador que lia Heidegger (Aymará, 2009), Te espero o tempo que for (Brasiliense, 2009), Histórias do dia a dia – Um toque de filosofia (Moderna, 2014); Me belisca! – Sete histórias filosóficas para crianças (Moderna, 2015), entre outros.

 

 Ilustração de destaque de Carlos Asanuma, mais conhecido por Asa. Trabalhou muitos anos em editora de livros didáticos, como Editor de arte, e agora dedica seu tempo ao desenho. Desenha desde criança. Ilustrou para revistas, jornais, publicações empresariais e livros didáticos. Além de desenhar, curte muito fotografia; adora fotografar insetos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *