A ascensão da Islamofobia nos Estados Unidos com a eleição de Donald Trump

(Texto de Gabrielle Cifelli)

O crescimento exponencial dos atentados terroristas praticados por grupos extremistas islâmicos em diversos países do mundo evidencia a onda de hostilidade e discriminação contra a comunidade muçulmana residente nos países ocidentais. Os fluxos migratórios de muçulmanos provenientes das zonas de conflitos e dos bolsões de pobreza da África e da Ásia em direção aos países europeus e a outros países desenvolvidos, como os Estados Unidos, acirram as práticas de intolerância religiosa que ameaça o convívio pacífico entre povos culturalmente diversos na era da globalização.

O pensamento anti-islâmico e as práticas discriminatórias contra cidadãos adeptos dessa religião, que, atualmente, tem aproximadamente 1.6 bilhões de seguidores em todo o planeta1, acentuaram-se após os atentados de 11 de setembro de (2001), de autoria do grupo terrorista Al Qaeda, nos Estados Unidos. Após esse acontecimento, a divulgação da mídia sobre quem são, o que pensam e como agem os grupos extremistas islâmicos alardeou a população mundial quanto ao risco de novos atentados de proporções catastróficas contra alvos civis. O medo, a insegurança, o ódio e o preconceito contra os muçulmanos se generalizaram, e estes passaram a ser (confundidos por muitas pessoas como) fundamentalistas e potenciais terroristas. Essa generalização errônea, muitas vezes, ocasionada pela falta de compreensão das mais diversas correntes do Islamismo e pela divulgação superficial e pejorativa da mídia quanto a seus preceitos, reforça a concepção equivocada de que eles são culturalmente retrógrados, sexistas, agressivos, perigosos e apoiadores de ações terroristas. Esse tipo de opinião generalizante tem se intensificado e resultado na Islamofobia.

Segundo Gema Munõz2, professora de Sociologia do Mundo Árabe da Universidade Autônoma de Madri, esse termo é usado como referência às percepções globais negativas e pejorativas sobre o Islã e à discriminação contra os muçulmanos por razões de ódio racial, revelando as atitudes e os comportamentos cotidianos de intolerância e preconceito sofridos pelos muçulmanos em diversas partes do mundo. Esse tipo de manifestação se torna cada vez mais evidente nos próprios discursos de personalidades que ocupam ou pretendem ocupar cargos políticos relevantes, como Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos.

Durante sua campanha eleitoral, Trump defendeu a proibição da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos e o monitoramento daqueles que já residiam no país pelo Serviço de Segurança e Combate ao Terrorismo. Pregou a vigilância das mesquitas  em território americano. Tais estratégias buscam amenizar a sensação de vulnerabilidade e insegurança da população dos EUA, temerosa do risco de novos atentados terroristas que estão assustando o mundo, principalmente os provocados pelos jihadistas do Estado Islâmico.

Crédito da foto: Joseph Sohm/Shutterstock

Segundo as ideias do novo presidente dos Estados Unidos e de parte da população, os terroristas podem entrar no país como imigrantes e refugiados, por isso, segundo suas pretensões divulgadas durante o período eleitoral, uma de suas principais plataformas políticas consiste em expulsar do país imigrantes ilegais, independentemente de sua nacionalidade, e impedir a entrada de refugiados, principalmente os provenientes de países com população majoritariamente muçulmana. Segundo o artigo publicado pelo professor de Direito da Universidade de Detroit, Khaled A. Beydoun3, no site da Aljazeera, a Islamofobia se tornará a política oficial do governo Trump. O professor alega que esse tipo de posição política acentua o ódio contra os muçulmanos.

Se Donald Trump realmente pôr em prática suas políticas xenófobas, acredita-se que o extremismo islâmico aumente de forma expressiva e acentue o risco global de novos atentados. O cerco à comunidade islâmica se dará com a deportação de inúmeros imigrantes muçulmanos, em condição ilegal no país, e também com o provável aumento do estado de vigilância do Estado sobre os muçulmanos, resultando em mais dificuldade para o livre exercício das crenças e dos costumes associados à tradição islâmica.

Receosa do futuro, a comunidade islâmica já sofre no presente com o aumento dos crimes de ódio e das ofensas raciais. Estatísticas do FBI sugerem um aumento em 65%, em 2015, dos crimes de ódio contra americanos muçulmanos4. A expansão desse tipo de injúria e de práticas discriminatórias, em vez de ser punida pelo Estado, passa a ser permissiva, resultando em uma resistência do próprio governo em tentar promover uma coexistência pacífica entre os povos culturalmente diversos, fato que eleva a tensão social e o risco de novos atentados.

A vitória de Trump à Casa Branca foi comemorada pelos líderes do Estado Islâmico e de outros grupos terroristas, pois suas atitudes islamofóbicas acentuam a hostilidade dos muçulmanos contra os Estados Unidos e fortalecem os grupos extremistas, colocando ainda mais em risco a tão almejada busca pela paz mundial.

Notas:

1 Dados divulgados no relatório “O futuro das religiões do mundo: população e projeções de crescimento 2010-2050”, elaborado por Pew Researched Center, de Washington, em 2015.

2 MUNÕS, Gema. La Islamofobia inconsciente. In: MUNÕZ, Gema Martím; GROSFOGUEL, Ramón. La Islamofobia a Debate: la genealogia del miedo al Islam y la construcción de los discursos antiislâmicos. Madri: Casa Árabe – IEAM, 2012. p. 35-47.

3 BEYDOUN, Khaled. Donald Trump. The Islamophobia president. Aljazeera, 9 de novembro de 2016. Dispinível em: <http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2016/11/donald-trump-islamophobia-president-161109065355945.html>. Acesso em: 15 ago. 2017.

4 LAK, Leila. A vitória de Trump e a vida dos muçulmanos americanos. Revista Diáspora, 17 dez. 2016. Disponível em: <http://www.revistadiaspora.org/2016/12/17/a-vitoria-de-trump-e-a-vida-dos-muculmanos-americanos/>. Acesso em: 15 ago. 2017.

 Gabrielle Cifelli é graduada em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Rio Claro; mestre em Geografia pela Unicamp. Docente da Fatec – Barueri e Itu – e da Universidade Cruzeiro do Sul, nas quais atua nas áreas de Geografia e Geopolítica. É também pesquisadora nas áreas de Geografia e patrimônio cultural.

Crédito da foto: Christopher Penler/Shutterstock

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