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As metáforas da vida líquida

(Texto de Samir Thomaz)

Vivemos em um mundo de coisas precárias, efêmeras, voláteis, temporárias. Produtos que somos, nossa obsolescência é programada. Isso tem um nome: vida líquida – denominação criada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que morreu nesta semana, numa visão muito própria do que se costuma chamar de pós-modernismo.

Falar em metáforas da “vida líquida”, termo criado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), pode parecer redundância, afinal, essa expressão já é, ela própria, uma metáfora da condição humana na contemporaneidade, segundo esse pensador. A escolha do título deste artigo, no entanto, é propositada e se deve à multiplicidade de associações figuradas que podem ser feitas com base no que o termo sugere. Basta olharmos no entorno para comprovar a vida líquida fluindo em todos os campos da atividade humana.

Mas antes de mostrarmos como essa categoria sociológica se manifesta na realidade, vejamos qual é a sua definição e como o próprio Bauman a conceituou. Em seu livro Vida líquida, ele escreveu:

“A ‘vida líquida’ é uma forma de vida que tende a ser levada à frente numa sociedade líquido-moderna. ‘Líquido-moderna’ é uma sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, das formas de agir. A liquidez da vida e a da sociedade se alimentam e se revigoram mutuamente. A vida líquida, assim como a sociedade líquido-moderna, não pode manter a forma ou permanecer em seu curso por muito tempo”.

Para não nos perdermos nessas nomenclaturas eminentemente baumanianas, devemos ter em mente que se trata de uma forma mais precisa ou mais idiossincrática que o sociólogo encontrou de nomear a modernidade e a pós-modernidade. Vida líquida, assim, equivale ao pós-modernismo, ou seja, a uma percepção do mundo, enquanto sociedade líquido-moderno corresponde à pós-modernidade, isto é, a um tipo de condição humana, ambas intrinsecamente conectadas e se contrapondo, respectivamente, ao modernismo (que ele chama de “vida sólida”) e à modernidade (sociedade “sólido-moderna” ou “modernidade sólida”).

Bauman, no entanto, faz questão de destacar que não é um sociólogo pós-moderno, apenas toma a pós-modernidade como objeto de estudo – muitos o chamam, aliás, de “profeta da pós-modernidade”, epíteto, por sua vez, que ele também rejeita.

Isto posto, podemos associar a vida líquida à precariedade, ao efêmero, à obsolescência e à volatilidade das coisas, que não conseguem se estabelecer como costume, hábito ou tradição antes de serem substituídas pelo novo, condição necessária da vida líquida. Conforme diz Bauman, “em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos e as capacidades em incapacidades”. Nada mais arriscado na sociedade líquido-moderna do que se basear na experiência do passado como estratégia para ações futuras. Não há coordenadas confiáveis. A instabilidade é a regra. Assim, a vida líquida é uma sucessão de reinícios levados a termo em condições de incerteza.

Uma das áreas em que a vida líquida mais se evidencia é o mundo do trabalho. Identificada com a globalização, uma das marcas da sociedade pós-moderna, e influenciada pelo ideário neoliberal, esse modo de vida assume um dos aspectos mais emblemáticos do cenário pós-fordista. A figura clássica do trabalhador que faz carreira em uma empresa, começando no chão da fábrica e chegando à diretoria ou simplesmente mantendo o mesmo cargo e se aposentando na corporação, como se fizesse parte de uma família, simplesmente não existe mais. Com isso, extinguem-se também os vínculos entre os trabalhadores, e, por extensão, a coesão sindical, fazendo da sociedade líquida uma comunidade de indivíduos da qual decorrem o hedonismo e o individualismo contemporâneos.

Crédito: betterthengoogle.blogspot.com

Até por isso, nada caracteriza melhor a vida líquida do que o consumo – e seu derivado perverso, o consumismo. Os objetos de consumo, produzidos segundo o modelo da “obsolescência programada”, ou seja, produtos com prazos de validade planejados ou expectativas de vida útil limitadas, acabam por pautar as relações e moldar os critérios de julgamentos de todas as coisas – incluindo os seres humanos. Assim, é preciso apresentar sempre atributos como viço, atração, poder, sedução, juventude, sob pena de não ser mais considerado um “produto” valorizado no mercado social, numa vigilância constante desses predicados.

Na sociedade líquida, o que não está up to date é considerado literalmente lixo. A imagem que mais bem ilustra essa ideia são os depósitos que acumulam computadores descartados diariamente, aparelhos que até bem pouco tempo eram usados nas imagens futuristas do que havia de mais avançado em tecnologia. Não por acaso o lixo é, segundo Bauman, o principal produto dessa sociedade, a ponto de sua produção ser a única que está imune a crises. Não pode haver crise em uma produção que se tornou o modo de vida de uma época. O sociólogo faz até um trocadilho com um conceito bastante conhecido da filosofia. Assim como, para alguns filósofos, vive-se para a morte, na sociedade líquida, vive-se para o lixo.

Crédito: João Vitor Carvalho

Obviamente há muito mais exemplos de vida líquida na atualidade que poderíamos ilustrar, mas que não cabem no espaço deste artigo. Por esta tese, bastante difundida nos meios acadêmicos e também entre leitores de fora da universidade, Bauman tornou-se uma figura pública bastante conhecida na atualidade. Formado pela Universidade de Varsóvia, na Polônia, em pleno contexto da Segunda Guerra, com as conhecidas consequências nefastas do nazismo sobre seu país, e professor da Universidade de Leeds, na Inglaterra, desde 1971, suas várias obras estão entre as mais procuradas por leitores do mundo inteiro. A ideia de uma vida líquida é, dessa forma, uma das teses sociológicas mais fecundas de nosso tempo.

Samir Thomaz é escritor, jornalista e editor.

Crédito da imagem principal: Pinterest

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