As duas Marias

(Texto de Cláudia Carvalho Neves)

As minhas duas avós se chamavam Maria. A avó paterna se chamava Maria Delphina. Quando criança achava Delphina um nome muito esquisito, ainda mais escrito dessa forma, com ph. Com o tempo, me acostumei a ele e, só agora, ao escrever o texto, ocorreu-me pesquisar o seu significado. Delfina, nome de origem grega, significa “golfinho” ou “nascida em Delfos”. Ele também remete ao título que designava o herdeiro da coroa francesa. Mas, apesar de se chamar Delphina, minha avó não era grega nem francesa. Ela nasceu em Portugal, em 1900, e, ainda criança, veio com os pais para o Brasil.

As lembranças de infância que tenho da minha avó Maria Delphina são sempre relacionadas à leitura e aos estudos. À leitura porque, na casa dela, havia estantes repletas de livros, que eram o meu deleite. Aos estudos porque ela era dona da escola de ensino primário onde estudei do jardim da infância à quarta série, o que a tornou uma personagem muito presente no meu cotidiano escolar (às vezes uma personagem um tanto incômoda, pois nem sempre era fácil ser a neta da dona da escola).

Minha avó sempre trabalhou como professora. À noite, deixava meu avô em casa, com os filhos, para alfabetizar adultos na escola da igreja do bairro. Quem cuidava da cozinha era o meu avô, que, aliás, era o responsável pelos almoços de domingo. Domingo era dia de almoçar em sua casa, e eu e meu irmão éramos as únicas crianças presentes. Para escapar àquele ambiente adulto, eu me sentava no chão na sala, ao lado da estante, e devorava os livros da coleção Tesouro da Juventude, que ficava na primeira prateleira, ao alcance das crianças.

No meio da tarde de domingo, saíamos da casa da avó Maria Delphina e íamos para a casa da avó materna. Seu nome era Maria, mas todos a chamavam carinhosamente de Dona Lica – Vó Lica para mim e meus primos. Lá, eu encontrava outro universo – uma casa sempre repleta de netos, todos chamados pela avó pelo diminutivo: Claudinha, Fernandinho, Liginha… As tardes de domingo eram uma festa, com crianças por todos os lados. Quando anoitecia, íamos em bando à padaria comprar pão e, na volta, fazíamos fila em frente ao fogão, onde a avó, que sempre tinha preparado frango ao molho para o almoço, colocava uma colherada de molho recém-esquentado em cada pedaço de pão que os netos lhe estendiam. Íamos todos comer nosso pedaço de pão com molho no quintal, enquanto aproveitávamos os últimos momentos do domingo juntos.

Ao contrário da minha avó paterna, Vó Lica não sabia ler nem escrever. Nunca frequentou uma escola em Senador Pompeu, no Ceará, onde nasceu. Ainda jovem, casou com Francisco, viúvo e pai de quatro filhos. Em um sítio, criaram os filhos de Francisco mais os dez que tiveram juntos. Nos anos 1950 subiram num pau de arara e vieram para São Paulo. Eram histórias da sua infância vivida no Ceará que nós, netos, gostávamos de ouvir. Histórias que havia vivido, mas também histórias que havia ouvido de seus avós e de seus pais e que repassava aos netos. Histórias de um tempo e lugar tão diferentes de tudo o que conhecíamos e que me fascinavam tanto.

Quando criança, eu transitava entre esses dois mundos e, assim, desde cedo, fui aprendendo a conviver com as diferenças e a valorizar e a respeitar o que aprendia em cada um desses mundos.

Minha avó Maria Delphina não correspondia em nada àquela imagem de avó que todos temos – que inventa histórias e brincadeiras, na casa de quem tudo é permitido e que faz delícias na cozinha. Era raro minha avó brincar com os netos, e não me lembro de alguma vez ter comido algo preparado por ela. Com ela aprendi que as pessoas não precisam se enquadrar em padrões pré-definidos. Aprendi sobre mulheres que não se conformam com o papel que lhes é socialmente destinado e que buscam percorrer novos caminhos.

Com minha avó paterna aprendi a conviver com os livros e a amá-los, aprendi muito sobre as transformações que ela, nascida no começo do século XX, vivenciou e que, excelente narradora que era e dona de uma memória prodigiosa, relatava com riquezas de detalhes nas conversas entre adultos, e que eu, menina, acompanhava sentada no chão da sala, ao lado da estante. Aprendi também sobre professores e alunos, sobre o amor e a dedicação ao trabalho com a educação.

Com a Vó Lica aprendi muito sobre fé, sobre acolhimento, sobre o conhecimento que não se adquire nos livros, mas na vivência difícil de quem tem de alimentar, vestir e educar 14 filhos. Aprendi sobre um mundo que não conheci – de banhos no açude, de plantações, de casa de fazer farinha, de quartos com rede para dormir no lugar de camas, de estórias e tradições orais.

A minha história de vida é formada a partir dessa diversidade. Tenho em mim um pedacinho de Maria Delphina e um pedacinho de Dona Lica. As duas Marias eram amigas. Gosto de pensar que trago em mim a essência dessa amizade: o afeto e o respeito pela diversidade.

Texto de Cláudia Carvalho Neves, editora de livros didáticos e mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo.

[c.c.neves@uol.com.br]

 

 Ilustração da capa de Silvana de Menezes, natural de Belo Horizonte, onde se graduou em Belas Artes na UFMG. A artista atua em vários segmentos artísticos, com relevância na literatura infanto-juvenil, como escritora e ilustradora. Em 2008, foi Prêmio Jabuti na Categoria Melhor Livro Juvenil e, em 2009, foi finalista do mesmo prêmio. Hoje tem mais de 40 títulos publicados e é traduzida no México, na Coreia do Norte e na China.

 

4 Comentários

  1. Rosemeire Carbonari

    Que relato tocante! Saboroso, como comida de avó. Ele consegue nos transportar com vivacidade para junto dessas duas avós, resgatando nossas reminiscências de infância e fazendo dessas senhorinhas desconhecidas pessoas tão familiares.
    Cada uma no seu estilo, elas eram mesmo apaixonantes.
    A ilustração também é fantástica! Adorei a estampa do vestido das vovós. rsrs

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    1. Cláudia C. Neves

      Obrigada pela leitura carinhosa, Rose. As duas Marias trazem nelas um pouquinho de todas as avós.

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  2. Noemi

    Claudia, gostei muito do seu resgate. Se a Maria Delphina estivesse viva ia ficar orgulhosa da neta que adentrou o caminho que ela amava – a literatura. Tambem a Vó Lica ia ficar orgulhosa que a neta se tornou uma contadora de histórias como os cantadores do nordeste.Você assinalou uma coisa importante – mesmo culturalmente diferentes elas se uniram pelo coração.
    Parabens e um beijo no seu coração, como se diz aqui no Ceará. Noemi Carvalho Neves.

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    1. Cláudia C. Neves

      Obrigada pela leitura, Noemi. Gosto muito do pedacinho de cada uma delas que há em mim.

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