Algumas reflexões sobre o brinquedo e a brincadeira

(Texto de Maria Schtine Viana)

No mês de outubro comemora-se o dia das crianças no Brasil. As lojas ficam superlotadas e o consumo toma o lugar do que deveria ser uma prática cotidiana que tem perdido seu verdadeiro sentido nas últimas décadas: a importância do brincar.

As brincadeiras são fonte inesgotável de diversão e aprendizagem para crianças de todas as idades, em diferentes lugares do mundo, em todos os tempos. Ao tentar imitar o adulto, por meio de diversos tipos de brincadeiras, a criança aprende a conhecer regras, socializar conhecimentos e compreender conceitos socialmente estabelecidos.

Entretanto, as crianças têm também a enorme capacidade de se sentirem atraídas por objetos descartados pelos adultos. Assim, tiras de tecido, tocos de madeira, pedaços coloridos de papel podem ser transformados de acordo com imaginação da criança.

Podemos dizer, então, que a brincadeira e o brinquedo podem e devem ser tratados com base nessa dupla perspectiva: a criança brinca porque precisa compreender como funciona o mundo do adulto, mas inventa e reinventa os jogos e as brincadeiras porque tem uma necessidade natural de criar seus próprios conceitos sobre o mundo real e também sobre aquele por ela imaginado.

Se na atualidade o brinquedo está estritamente condicionado às regras do capital e tornou-se uma mercadoria rentável, no passado, existia uma relação estreita entre as brincadeiras e os ritos praticados por diferentes povos.

Brincar em um balanço, por exemplo, atividade que ainda faz a alegria de crianças na atualidade, era comum na Grécia Antiga, na festa Aiora, ou festa da juventude. Nessa festividade, os meninos saltavam sobre odres de vinhos e as meninas eram empurradas em balanços; possivelmente, tratava-se de um ritual em prol da fecundidade. Existia, portanto, uma relação entre as brincadeiras e essa cerimônia de iniciação.

Em muitas culturas antigas, acreditava-se que a fartura de uma colheita dependia do bom desempenho dos jogadores em competições, realizadas em festas que eram verdadeiras cerimônias sagradas. Esses jogos e brincadeiras eram, portanto, vivenciados por todos os membros de uma comunidade para celebrar as mudanças das estações do ano, a época das colheitas, o nascimento de crianças ou a morte de um líder comunitário.

Até meados do século XVII, os jogos e as brincadeiras eram vivenciados por adultos e crianças na mesma proporção. Em uma época em que o trabalho não ocupava tanto o tempo das pessoas, era comum crianças e adultos compartilharem o espaço do brincar com a mesma disponibilidade hoje reservada apenas às crianças.

Detalhe da obra Jogos infantis, Pieter Bruegel, 1560

A distinção entre brincadeiras infantis e brincadeiras de adultos começou a ser estabelecida nos séculos XVII e XVIII, quando surgiu a necessidade de evitar que os nobres se misturassem com os plebeus. Foi nesse período também que teve início a separação entre o mundo do adulto e o mundo da infância. Contudo, não havia ainda uma fronteira rígida entre brincadeiras de menino e brincadeiras de menina.

Com o passar do tempo, os jogos e as brincadeiras foram sendo dissociados de seu caráter religioso e comunitário. Nesse processo, o espaço e o tempo do brincar foram paulatinamente apropriados pelas crianças, surgindo assim a ideia que impera na atualidade, ou seja, que as brincadeiras e os jogos podem ser praticados coletivamente ou individualmente, mas só por crianças.

Foi a partir do século XIX que a produção de brinquedos passou a ser objeto de uma indústria específica e esse fato está associado às grandes mudanças no mundo com a mecanização do trabalho e também à mudança da própria concepção de criança e de infância.

Com a ascensão da burguesia, a legalização do matrimônio, o objetivo de preservar o patrimônio e garantir os direitos transmitidos de pai para filho, os papéis do homem e da mulher passaram a ser bem demarcados na sociedade. A mulher deveria dedicar-se aos cuidados com a casa e à educação dos filhos; o homem, por sua vez, trabalharia fora para garantir o sustento familiar. Nesse contexto, as brincadeiras infantis também ganharam outra dimensão: as meninas passaram a brincar com bonecas e ganhar casinhas em miniaturas para aprenderem a ser mães exemplares e boas donas de casas; os meninos começaram a ser estimulados a participar de jogos em que deveriam mostrar força e destreza.

No entanto, a partir do século XX, esse contexto se alterou. Com a participação cada vez mais expressiva da mulher no mercado de trabalho e a eclosão de uma complexa rede de valores e informações da sociedade de massa, muitas questões precisam ser revistas. Por exemplo, se as brincadeiras infantis têm entre suas funções a de ajudar a criança a entender seu papel no mundo adulto, não faz mais sentido diferenciar brincadeiras de meninas de brincadeiras de meninos, ou elogiar determinados comportamentos considerando-se a questão de gêneros.

Recapitulando, no passado, grande parte das brincadeiras era compartilhada por adultos e por crianças e também não havia a distinção de gênero, tão comum em nossa época, que estabelece uma linha divisória entre brincadeiras e brinquedos de meninos e de meninas.

O grande avanço da produção em série de brinquedos, sobretudo pensados para que a criança brinque sozinha, também contribuiu para que artefatos industrializados substituíssem o espaço da brincadeira e do jogo coletivo. Com a produção seriada do brinquedo atraente, perdeu-se o verdadeiro sentido do brincar.

Cabe destacar ainda que atualmente a necessidade de comprar brinquedos caros, e, muitas vezes, descartáveis no dia da criança pode ser apenas uma estratégia para diminuir a culpa dos adultos por não terem tempo disponível para brincar com os filhos, em decorrência da carga excessiva de trabalho e outros afazeres.

Estar disponível para brincar, criar jogos, recuperar uma brincadeira de infância, rolar na grama, contar uma história, ensinar uma cantiga, construir uma geringonça de sucata, por exemplo, não custa nada, nem requer muito tempo, sobretudo se os adultos, como acontecia no passado, não tiverem vergonha de brincar. Brincar é bom e necessário em qualquer idade.

 Maria Schtine Viana nasceu em Carangola, Minas Gerais, e viveu alguns anos de sua juventude em Belo Horizonte para estudar Artes Cênicas. Depois, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou durante muitos anos como editora. Atualmente, mora em Portugal e é doutoranda na Universidade Nova de Lisboa. É escritora e autora de obras didáticas e livros destinados à formação de professores. Mestre em Culturas e Identidades Brasileiras pelo IEB-USP e Bacharel em Letras pela mesma instituição, escreveu os livros Silêncios no escuro (Ateliê), História e Geografia do Nordeste (FTD), A lenda dos diamantes e outras histórias mineiras (Scipione), Festa no céu (Positivo), Asa da Palavra: literatura oral em verso e prosa (Melhoramentos), Um estudo sobre as obras clássicas de viagens e aventuras, Um estudo sobre as fábulas e os contos de fadas (Eureka), entre outros.

Ilustrações de Silvana de Menezes, natural de Belo Horizonte, onde se graduou em Belas Artes na UFMG. A artista atua em vários segmentos artísticos com relevância na literatura infantojuvenil como escritora e ilustradora. Em 2008, foi Prêmio Jabuti na Categoria Melhor Livro Juvenil e em 2009 foi finalista do mesmo prêmio. Hoje conta com mais de 40 títulos publicados e é traduzida no México, na Coreia do Norte e na China.

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