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A memória e as ausências

(Texto de Cláudia Carvalho Neves)

Nos últimos tempos, eu tenho me encantado cada vez mais com a escrita de dois autores: o brasileiro João Anzanello Carrascoza e o português José Luís Peixoto.

Entre seus livros, dois me chamaram a atenção – Caderno de um ausente, de Carrascoza, e Morreste-me, de José Luís Peixoto –, porque apresentam um ponto em comum, além da narrativa poética desenvolvida pelos dois autores de forma maravilhosa: ambos tratam da memória desencadeada pela morte, embora a morte seja vista de perspectivas de tempo distintas nas duas obras.

Em Caderno de um ausente, a escrita traz uma espécie de diário feita por um pai de meia-idade para a filha recém-nascida, pois ele sabe que, pela sua idade, ele e a filha não vão conviver por muito tempo:

“[…] Acabas de nascer e eu tenho de te explicar, como se já pudesse entender, e, da mesma forma, estou dizendo a mim, que não vamos passar muito tempo juntos, que deves te preparar para viver mais longe do que perto – eu farei parte, para sempre, só do início de tua história; não há outro jeito, mesmo com a maior das esperanças, de te ver crescer […]”.

Então, ele registra, em um caderno, suas lembranças, histórias da família – de pessoas que a menina não conheceu e que só iria conhecer por meio das histórias contadas por ele – e dos primeiros momentos que vivenciou com a filha. E antecipa os momentos e as experiências que gostaria de compartilhar com ela.

Para o filósofo alemão Walter Benjamin, é no momento da morte que o saber de um homem e a sua experiência vivida assumem pela primeira vez uma forma transmissível, conferindo a ele autoridade. Essa autoridade está na origem da narrativa.

Em Caderno de um ausente, é a ameaça da proximidade da morte que autoriza o pai a narrar suas lembranças à filha e também a ensiná-la que as lembranças são aquilo que permanece em nossa memória – as experiências vividas – e que a memória só se fortalece se a formulamos de novo no presente, fazendo com que, dessa forma, aqueles que estão ausentes continuem em nossa vida, pois eles fazem parte de nossa história de vida, história esta que começa antes mesmo de nós nascermos: “O passado inunda, o passado nasce riacho e se engrossa na garganta de mares incontornáveis, a ensopar uma vida nova, que, no entanto, já carrega em seu bojo velhas narrativas”, registra o pai no caderno.

No relato escrito pelo pai à filha, a memória é construída para o futuro.

Em Morreste-me, o narrador adulto, logo após a morte do pai, relembra o que os dois viveram juntos. As lembranças são desencadeadas a partir do retorno do narrador à casa paterna. A memória é a do luto.

“Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido de luz a limpar as casas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e maresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhos falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo como se continuasse”.

Neste parágrafo que inicia o livro, o narrador apresenta o desequilíbrio entre a sua perda e o mundo ao seu redor, que agora lhe parece hostil porque, indiferente à sua dor, segue o seu curso. Na volta à casa paterna, que é também a casa de sua infância, o narrador rememora e repete os mesmos gestos do pai, ao tirar o molho de chaves do bolso, escolher a chave certa e abrir o portão. Como se, na repetição do gesto do pai, fosse possível voltar no tempo e reviver os momentos e as experiências com ele compartilhadas. Neste primeiro retorno ao lar após a morte do pai, as lembranças do narrador são entremeadas à batalha que trava com o mundo que segue adiante.

A noite que passa na casa é pautada por lembranças desencadeadas pela mobília e pelos objetos que pertenciam ao pai. Mobília e objetos representam o elo com o passado e cada um deles remete às experiências vividas com o pai. Após percorrer esse mapa afetivo, o narrador deixa a casa paterna, no dia seguinte, com o sentimento de que esse mundo deles será para sempre revivido, porque ele leva consigo os sonhos e as certezas do pai nos espaços dos seus próprios sonhos e certezas: “Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim”.

Em ambos os livros, o que nos toca é a delicadeza com que as memórias são resgatadas e apresentadas e a certeza transmitida por ambos os narradores de que não é preciso que as pessoas queridas e amadas estejam fisicamente presentes, para não nos sentirmos sós, porque sempre as levamos em nós.

Para ler:

Caderno de um ausente, de João Anzanello Carrascoza. Cosac Naify, 2014.

Morreste-me, de José Luís Peixoto. Dublinense, 2015.

 

Cláudia Carvalho Neves é editora de livros didáticos e mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo.

c.c.neves@uol.com.br 

 

 Ilustração de destaque de Carlos Asanuma, mais conhecido por Asa. Trabalhou muitos anos em editora de livros didáticos, como Editor de arte, e agora dedica seu tempo ao desenho. Desenha desde criança. Ilustrou para revistas, jornais, publicações empresariais e livros didáticos. Além de desenhar, curte muito fotografia; adora fotografar insetos.

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