A memória da infância

(Texto de Cláudia Carvalho Neves)

 

Outro dia fui presenteada com o livro de literatura infanto-juvenil Um avô e seu neto, de Roseana Murray, uma autora de quem eu gosto muito. A história trata da relação de amor e de aprendizagem que se estabelece entre um avô e seu neto e nos convida a uma reflexão sobre o convívio com os mais velhos.

Ao ler o livro, me veio à lembrança o estudo do sociólogo francês Maurice Halbwachs (1877-1945) sobre memória. De acordo com Halbwachs, em sua obra A memória coletiva (Centauro, 2011), existem memórias individuais e memórias coletivas, sendo que a memória individual está inserida na memória do grupo ao qual a pessoa pertence. Em outras palavras, a minha memória não é formada apenas pelo que eu vi, mas também pelo que talvez eu tenha visto ou tenha ouvido do testemunho de outras pessoas que faziam parte do meu grupo de convivência.

Para Halbwachs, os avós têm um papel importante em nossa memória da infância. Enquanto os pais estão entregues aos interesses e aos deveres da vida adulta e aos acontecimentos do mundo contemporâneo, os avós são responsáveis por compartilhar com as crianças a história vivida e a memória de um tempo remoto. Eles transmitem ensinamentos às crianças por meio de sua própria experiência, de histórias, músicas, brincadeiras. No contato com os avós, o mundo dos adultos é revestido de um sentido familiar, afetivo. E, mais tarde, quando a criança se tornar adulta, suas lembranças da infância se apoiarão mais no passado vivido do que no passado apreendido pela história escrita.

Ao discorrer sobre o papel dos avós na memória da infância, Halbwachs assinala que há um momento em que o adulto não mais trabalha e deixa de ser considerado um membro ativo da sociedade. Nesse momento, ele passa a exercer outra função social: a de lembrar.

No livro de Roseana Murray, quando estava feliz, o avô contava ao neto histórias impressionantes de elefantes que cantavam óperas ou de crocodilos vendedores, trazendo o papel do lúdico ao cotidiano do menino. Mas, quando se lembrava de que não podia mais trabalhar, o avô contava ao neto histórias de sua infância vivida em um país do outro lado do oceano, onde fazia muito frio, histórias de um tio que havia feito um cavalo de barro para ele, histórias de sua viagem para o Brasil… O avô contava ao neto histórias de sua vida. E, ao contar essas histórias, ele estava cumprindo a sua função social – a de lembrar e de ser a memória da família, do grupo, tornando presentes para o neto as experiências que havia vivido, as lembranças dos parentes ausentes…

Cabe ressaltar que nunca estamos sós. Mesmo que as pessoas não estejam fisicamente presentes, nós sempre as levamos dentro de nós, sempre levamos conosco as lembranças das pessoas com quem convivemos e as experiências que com elas compartilhamos, pois essas lembranças e experiências fazem parte de nossa memória e de nossa identidade.

Transcrevo a seguir um trecho do livro da Roseana Murray e faço um convite para refletirmos sobre como as experiências que compartilhamos com nossos avós e os ensinamentos que deles recebemos fazem parte da nossa memória da infância e em que medida essas experiências e ensinamentos nos ajudam na percepção e no entendimento de quem somos hoje e na construção do nosso futuro:

 

[…] Os avós sabem de muitas coisas. Os avós guardam a infância deles na memória, com seus rios azuis, suas ruas de barro, chapéus, cavalos, lampiões. Um mundo tão antigo que já quase não cabe mais neste nosso mundo.

Quando um avô morre, esse mundo antigo morre com ele, assim como todos os cavalos, rios azuis, ruas de barro. Por isso eu, particularmente, acho que os avós nunca deveriam morrer. Mas, para que as coisas que eles guardam lá no fundo deles – essa poeira encantada de outros tempos – não desapareçam completamente, existem os netos. (MURRAY, 2010, p. 5-6).

 

Para ler sozinha ou com as crianças: Um avô e seu neto, de Roseana Murray. Editora Moderna, 2015. Disponível também em ePub.

Para conhecer um pouco mais sobre o tema memória: A memória coletiva, de Maurice Halbwachs. Centauro Editora, 2011.

 

Texto de Cláudia Carvalho Neves

Editora de livros didáticos e Mestre em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo

e.mail: c.c.neves@uol.com.br

 

 

Ilustração de Joyce Thomaz, paulistana, 26 anos, designer e ilustradora. Graduada em Design pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e diretora de arte pela Escola Panamericana de Arte e Design. Atualmente trabalha na Agência TUTU, que atende as áreas de Publicidade e Conteúdo Digital.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *