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A literatura salva

(Texto de Graça Sette)

Milagres existem. E vou relatar um: pela primeira vez, na minha já longa vida, vi a lua, as estrelas, as cores, o rosto das pessoas com nitidez. Nunca tinha visto algo que ficasse a mais de 20 centímetros de meus olhos. Depois de muitas consultas a especialistas, exames incômodos e intermináveis, aplicações de colírios e mais colírios, injeções nos olhos, cirurgias, transplantes de córnea… Enfim: a evolução da medicina me trouxe a luz!

E hoje, fazendo um retrospecto, me pergunto: como dei conta de viver sem ver e o que essa condição me ensinou?

Vamos ao flashback.

Quando entrei na escola – filha de uma professora e de um farmacêutico, na pequena Guanhães, minha terra –, eu chorava muito. Por quê? Porque não enxergava o que a professora escrevia na lousa. Então, eu me levantava, ia ao quadro, voltava com o nariz sujo de giz e escrevia o que memorizava da lousa, no caderno.

Sofri profundamente porque as outras crianças riam de mim. Eu não sabia dar nome ao que faziam comigo, nem ao que sentia. Não havia nomeação, ainda, para essas atitudes de rejeição e zombaria a que hoje chamam de bullying.

Mas não importa o nome: a dor era quase insuportável.

Eu, menina, não subia em mangueiras, não participava das brincadeiras por motivos óbvios: não enxergava a bola, a peteca. Que time ia querer uma jogadora que o levaria à derrota? Isso eu já entendia…

O problema de visão comprometia meu equilíbrio, minha motricidade, minha noção de distância e de profundidade. Eu caía, caía muito. Chorava mais ainda… A família brincava que minhas lágrimas poderiam solucionar a seca do Nordeste. Os óculos muito grossos e o estrabismo me enfeiavam. Os apelidos? Vocês já podem imaginar quais eram…

Apesar de tudo, aprendi a ler rapidamente. Quando compreendi que a combinação de um número tão limitado de letras do nosso alfabeto (que já foram 23 e hoje são 26) me trazia notícias de longe e contava histórias, meu campo de visão se ampliou. Passei a enxergar o que muitos olhos perfeitos não viam. Comecei a ler tudo: nome de remédios, bulas (sou filha de farmacêutico: repito), revistas, anúncios, placas de rua, dicionários, enciclopédias…

Meus pais compreenderam tudo. E me deram livros literários que chegavam pelo correio (em Guanhães não havia livrarias).

E ainda tive professoras e professores maravilhosos!

Assim (desde menina), passei a conviver com fadas, bruxas, princesas, sapos que viravam príncipes, porquinhos engenheiros, casas de chocolate, palácios encantados, Terra do Nunca, menino de madeira que não quer se tornar adulto; príncipe que viaja por galáxias, rei sem reino, rei nu; crianças que veem o que os adultos não conseguem ver; festa no céu, assombrações, saci, mula-sem-cabeça, fantasmas, ogros, sereias, marujos, bichos falantes, boneca rebelde, sabugo filósofo…

Fui me tornando, então, uma “poliana”. E passei a pensar: “eles brincam, eu leio; ler é brincar em todos os lugares, em outros planetas, com personagens fantásticos, voar sem asa…”

Desenvolvi um lado lúdico de me divertir com pouco; rir de mim mesma.

Apeguei-me ao estudo da língua e da literatura. Na Universidade, encontrei Mestres. Fui ensinar e aprender como  professora de Português. E espero ter passado esse amor à literatura aos milhares de adolescentes com quem partilhei o gosto pela leitura desde os 18 anos.

Entre os legados que os pais e a escola podem deixar para crianças, adolescentes e jovens está o amor à leitura. Aprendi que a Literatura nos ensina a compreender o outro, a ter empatia e compaixão. E, talvez, o melhor remédio para combater o bullying seja ela: a Literatura. Aprendi ainda que a beleza das pessoas não pode ser vista contemplando apenas os seus traços perfeitos e harmoniosos. Beleza sempre foi para mim o cheiro, a voz, o abraço, o sorriso.

Como se pode ver, enxergar pouco tem lá suas vantagens.

Vivam os escritores! E vivam os leitores! E que todos possam saber ler e ter um livro ao alcance das mãos.

Não é por nada não: mas a Literatura salva!


 Graça Sette começou a usar óculos desde os 3 anos de idade, tinha 28 graus de miopia, ceratocone, estrabismo, problemas na retina e no vítreo. Por último, catarata. Já fez dois transplantes de córnea, cirurgia de estrabismo, tratamentos experimentais. Em dezembro de 2015, com o implante de uma lente intraocular, melhorou a visão do olho esquerdo, o que para ela foi fantástico, mesmo continuando com baixa visão. Mas continua sem a visão do olho direito. 
É leitora apaixonada. Mineira de Guanhães, mora em Belo Horizonte desde a década de 1970. É professora, escritora (“sempre aprendiz”, como gosta de dizer) e coautora de várias obras paradidáticas e didáticas. Entre elas se destacam: Transversais do mundo – leituras de um tempo (Ed. Lê, 1999, Prêmio Jabuti/2000 de “melhor livro paradidático”); Para ler a Gramática (Ed. Lê, 2005); Para ler o mundo (Português, Ensino Médio, Ed. Scipione, 2010); Português: linguagens em conexão (Ensino Médio, Ed. Leya, aprovada no PNLD-2015/MEC) e Português – Trilhas e Tramas (Ensino Médio, Ed. Leya, 2015/2016).

 Ilustração de destaque de Carlos Asanuma, mais conhecido por Asa. Trabalhou muitos anos em editora de livros didáticos, como Editor de arte, e agora dedica seu tempo ao desenho. Desenha desde criança. Ilustrou para revistas, jornais, publicações empresariais e livros didáticos. Além de desenhar, curte muito fotografia; adora fotografar insetos.

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