Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

A água nossa de cada dia

(Texto de Ricardo Lourenço Rosa)

O problema da gestão dos recursos hídricos no planeta não tem uma única abordagem ou causa principal. Caso contrário, não seria uma grande provocação ao nosso raciocínio. Trata-se de um cenário multicausal, ligado às nossas atitudes em relação ao ambiente, ao conteúdo formal que ensinamos nas escolas, ao contexto social e estratégico do uso da água ao longo da história das sociedades humanas, à grande dependência de todos os seres vivos para com este precioso recurso natural, ao modo como os poderes públicos encaminham a gestão desse recurso limitado, ao fato de o Brasil deter quase 20% da água doce líquida disponível no contexto mundial, entre outros aspectos.

Escrever sobre a questão da água, sem apelos emocionais ou dados estatísticos, pode se tornar uma tarefa árdua e direcionar para uma análise, essencialmente, científica. Nosso objetivo e ideal aqui, neste espaço, é promover reflexão, debates e entendimento, um aprendizado verdadeiro que estimule os comportamentos essenciais às boas práticas culturais, educacionais e socioambientais, com destaque, neste caso, para o uso racional da água em quaisquer instâncias de nossa sociedade.

Na média, o que requer muito cuidado na análise, para cada casa brasileira, são consumidos diariamente 200 litros, dos quais 54 litros são usados para cozinhar e na ingestão direta, 50 litros destinam-se ao banho e à escovação dos dentes, 24 litros vão para a lavagem de roupas, 6 litros para outros fins e 66 litros nas descargas dos banheiros. Esses dados médios mostram dois caminhos em nossa utilização de água: um “mais nobre”, ligado à alimentação e à higiene; e outro “menos nobre”, ligado às atividades de lavanderia e ao saneamento básico.

Nada disso seria um problema, se houvesse dois sistemas hidráulicos em cada residência, um com água de reuso para fins menos nobres e um com água de ótima qualidade para fins mais nobres, como alimentação e higiene. Identificam-se, nesse exemplo, causas ligadas à cultura, ao poder público e à educação ambiental básica.

Mas por que economizar água ou privilegiar a sua melhor gestão? A água não é um recurso infinito? A Terra não é o Planeta Água, como canta Guilherme Arantes em seus versos?

A resposta direciona a uma abordagem educacional formal e simples, que qualquer cidadão poderia ter aprendido na escola básica, durante a sua frequência nos Ensinos Fundamental e Médio. A água é um recurso finito, pois sua quantidade não varia no planeta; apenas muda de estado físico e de compartimentos ambientais, ou seja, no ciclo da água existem ações físicas e biológicas, responsáveis por movê-la entre os grandes reservatórios líquidos, como rios, lagos e oceanos; gasosos, como a atmosfera; e sólidos, como as geleiras e as calotas polares. Mas os seres vivos também interferem nesse ciclo hidrológico, uma vez que transpiram e bebem água. Os animais, ainda, a excretam em grandes quantidades em seus processos de autorregulação e as plantas a utilizam na presença de luz e de gás carbônico, durante o processo da fotossíntese, para produzir moléculas fundamentais ao seu funcionamento e crescimento.

Na verdade, a água líquida disponível para usos nobres está diminuindo, em decorrência da poluição ambiental. Os poluentes que chegam até os mananciais são de diversas origens e em enormes quantidades, como o esgoto doméstico, com grandes lançamentos de detergentes, restos de alimentos, óleos e dejetos de nossa excreção. O tratamento desses mananciais consome tecnologia, tempo e dinheiro. As estações de tratamento de esgotos e de água representam um custo social, literalmente repassado para a população, o que limita o acesso universal à água de boa qualidade.

 Ilustração: Joyce Thomaz.

E a demanda por água só aumenta. Seja na agricultura, na indústria de transformação, seja no uso doméstico, em razão das elevadas taxas de crescimento populacional.

Esgotos domésticos e efluentes de atividades econômicas são lançados in natura nos mananciais, dos quais muitas populações captam água sem tratamento, diretamente, para seu consumo. E, nesse cenário, estabelecem-se questões seríssimas de Saúde Pública e de Saneamento Básico.

Alguns dados do relatório de 2015 da ONU complementam a abordagem: por exemplo, 40% da população mundial já enfrenta escassez de água, representada por aproximadamente 21 países. As estimativas indicam que o consumo mundial dobra a cada 20 anos, e a disponibilidade de água de qualidade per capita, no planeta, foi reduzida em 60% nos últimos 50 anos; 25% da população do planeta não têm acesso à água potável. Ainda, segundo esse mesmo relatório da ONU, 2,2 milhões de pessoas morrem a cada ano por beberem água com algum tipo de contaminação química ou biológica. Somam-se a isso a ocorrência de 4 milhões de casos de diarreia por ano e o fato de 72% dos leitos hospitalares serem ocupados por pacientes vítimas de doenças veiculadas pela água, como amebíase, tifo, leptospirose, cólera, ascaridíase, hepatite, entre outras. Essa abordagem mostra a falta de educação e investimento para a saúde, a falta de saneamento básico por parte do Poder Público e o crescimento populacional desordenado como fatores intensificadores da problemática hídrica.

Outra maneira de tentar completar o mosaico que representa a questão hídrica é lembrar da distribuição do recurso no planeta, cuja superfície é coberta por ¾ de água salgada (mares e oceanos), que, somada às geleiras e às calotas polares, perfazem um total de 99% da água existente no planeta indisponíveis e inadequadas para o consumo direto pelo ser humano.

Nas cidades, os sistemas de captação, tratamento e distribuição de água apresentam sérios problemas e deficiências. No mundo, 50% da água captada para as grandes cidades é desperdiçada, e, no Brasil, esse percentual chega a 40%. Deve-se considerar, ainda, que 58% dos municípios brasileiros não têm água tratada.

Finalizando esta tentativa de reflexão sobre o tema, recorro novamente ao relatório da ONU, que prevê, a partir de 2025, sérias crises mundiais de abastecimento de água, atingindo 2,8 bilhões de pessoas. Disso decorrerão inúmeros conflitos violentos pelo controle de mananciais de água líquida, que serão registrados em, pelo menos, 70 regiões do planeta.

Texto de Ricardo Lourenço Rosa. Educador, gestor escolar, especialista em estudos de meio e professor de Biologia e Ciências afins por 30 anos, em instituições de Ensino Médio, Superior, Cursos pré-vestibulares, Cursos de capacitação metodológica para professores, Cursos de formação profissional e de inclusão na área socioambiental. Ampla vivência no mercado editorial, atuando como autor, revisor e leitor crítico de obras didáticas para editoras, sistemas de ensino, de objetos educacionais digitais e de materiais didáticos para educação a distância. Tutor de cursos on-line. Consultor e gestor de projetos socioambientais ligados ao Terceiro Setor. Gestor de organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP).

 

 

Ilustração de Joyce Thomaz, paulistana, 26 anos, designer e ilustradora. Graduada em Design pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e diretora de arte pela Escola Panamericana de Arte e Design. Atualmente trabalha na Agência TUTU, que atende as áreas de Publicidade e Conteúdo Digital.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *